domingo, 9 de dezembro de 2007

Fim de Ano

Durante uma entrevista famosa, que acabou virando livro, perguntaram ao grande mitólogo Joseph Campbell, que era também Professor de Mitologia em uma universidade americana, como ele havia conseguido que “jovens provenientes da classe média - com suas religiões ortodoxas – se interessassem pelos mitos?”
Campbell respondeu, e eu assino em baixo, que “a mitologia (ensina às jovens) o que está por trás da literatura, das artes, ensina sobre a sua própria vida. É um assunto vasto, excitante, um alimento vital. A mitologia tem muito a ver com os estágios da vida, as cerimônias...”
As palavras de Campbell sintetizam bem o valor que a mitologia tem em meu trabalho, e em minha vida. A mitologia nos ensina sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre as mudanças e como enfrentá-las.
Foi um prazer partilhar com vocês destes passeios pelo reino da mitologia, um reino de riquezas inesgotáveis. O qual é, na verdade, o reino do humano: dos comportamentos, das relações, das armadilhas da vida, do medo da morte, da busca do amor, do sucesso, da paz de espírito, do auto-conhecimento. O reino da Psicologia.
O fim do ano se aproxima, a época dos encerramentos, dos finais, da celebração e do cansaço. Encerramos aqui este blog. Prometemos voltar com o novo ano. Mando um abraço gostoso a todos que me acompanharam e enriqueceram o blog com comentários, e-mails e sugestões. E feliz ano novo para todos!

domingo, 2 de dezembro de 2007

O Homem-Agamenon

Quando os gregos declararam guerra contra Tróia, Agamenon, o mais poderoso dos reis gregos, reuniu todo o exército no porto. Já estavam prontos para partir quando uma calmaria se abateu sobre o oceano. Nem uma brisa soprava; os navios não podiam zarpar.
Agamenon consultou um oráculo e ficou sabendo que a calmaria era um castigo de Ártemis, a protetora das mulheres, que estava indignada por que fora a única deusa a quem Agamenon não havia feito nenhuma oferenda. Exigia que Agamenon sacrificasse sua filha Ifigênia para permitir que os gregos fossem à guerra. Dividido entre o amor à filha e a glória de derrotar Tróia, Agamenon escolheu a glória. Sabendo que a esposa e a filha poderiam se opor ao sacrifício, usou de um estratagema. Mandou um recado comunicando que Aquiles, o maior herói grego, queria se casar com Ifigênia antes de partir para Tróia. Ifigênia e sua mãe, felizes, sem desconfiar de nada, foram para o porto celebrar as bodas. Mas não houve casamento algum. Ao invés, Ifigênia foi assassinada. Aquiles, quando soube que fora usado como isca, ficou furioso.
Agamenon enganou a esposa, o amigo, sacrificou sua própria filha, tudo em prol de um único objetivo: conquistar a glória e o poder.
Chocante? Pois histórias como esta são mais comuns do que você pensa no dia de hoje – homens-Agamenon que sacrificam tudo em busca de ascensão profissional, status e poder. Hoje, é claro, não precisam matar fisicamente a filha. Basta não ter tempo para a esposa e os filhos, ou ignorá-los quando estão presentes. No trabalho, homens-Agamenon tendem a tirar o sangue dos funcionários, exigindo que se dediquem exclusivamente ao emprego, e que sacrifiquem sua vida pessoal como ele fez. Muitas vezes usam de artimanhas questionáveis para atingir seus objetivos.
Um homem-Agamenon sacrifica seu lado feminino – nega seus sentimentos, intuições, e não se importa com as conseqüências de seus atos na vida de outras pessoas.
Mas não são somente homens que agem como Agamenon. No mercado globalizado, onde as mulheres competem diretamente com os homens pelo status e poder na vida profissional, elas sacrificam sua própria feminilidade, sua vida pessoal, em prol do sucesso profissional, do bônus, do status – e acabam se tornando velhas amargas e solitárias.

domingo, 25 de novembro de 2007

A grande escolha

Zeus deu uma festa no Olimpo e convidou todos os deuses. Todos, menos um - a deusa Discórdia, que apareceu de qualquer maneira, levando uma maçã de ouro para a deusa mais bonita. Mas não disse qual. Deixou para Zeus decidir. Zeus, que não era bobo, passou a responsabilidade para Hermes. Hermes sabia que se desse a maçã para uma delas estaria comprando briga com as outras deusas. Falou o seguinte: “Só um mortal pode escolher qual a deusa mais bela, não sendo deus ele será mais imparcial.” E passou a honra a Páris, um príncipe de Tróia.
Hera disse a Páris:
- se você me der a maçã, eu lhe darei todas as terras que desejar.
Atena falou:
- se você me der a maçã, você será vitorioso em todas as guerras.
E Afrodite:
- se a maçã for minha, você terá a mulher que desejar.
Páris deu a maçã à Afrodite e isto o levou a guerra de Tróia.
Nós, mulheres temos que fazer a mesma escolha de Paris. Nós todas temos as três deusas dentro de nós. Se dermos a maçã a Hera, ela vai nos dar um casamento sólido, com segurança financeira. As mulheres-Hera são respeitadas na sociedade – são vistas como senhoras sérias e responsáveis, as matriarcas. Se entregarmos a maçã à Afrodite, ela nos dará muito prazer na vida. As mulheres-Afrodite vivem intensamente, fazendo o que gostam, procurando a satisfação pessoal mais do que status, ou dinheiro, mesmo no trabalho. Também podemos dar a maçã a Atena, que nos dará realização profissional, sucesso nos negócios, status e competência.
Então para quem dar a maçã?
Na grande festa da vida não podemos esquecer nem do amor, nem de cuidar de nossa profissão e posses.

domingo, 18 de novembro de 2007

Hefesto e Afrodite

Por que Afrodite, deusa do amor e da beleza, casou-se com um deus que vivia para o trabalho e não tinha tempo para ela?
Por que mulheres criativas, com sede de viver, casam-se com homens que vivem só para o trabalho?
É difícil entender por que Afrodite, que já tinha sido amante de Hermes, Dionísio, Adônis, deuses que foram carinhosos e atenciosos com ela, casou-se com um deus que não a compreendia e a humilhava.
Da mesma maneira, é difícil entender porque uma mulher Afrodite, que já ficou com homens que a admiram e respeitam, bons de papo, bons de cama, casa-se com um homem que só trabalha e a acusa de ser pervertida apenas por querer ir a uma festa. Homens que não dançam, não gostam de sair e nem de conversar.
O mito pode nos dar uma dica sobre esta questão: foi Zeus que obrigou Afrodite a se casar com Hefesto.
Em nossa sociedade patriarcal, o que a mulher-Afrodite busca no casamento é segurança. O homem-Hefesto a atrai porque a lembra de uma montanha – sério, responsável, calado, seguro. Ele oferece um casamento estável a ela.
Mas, mais tarde, ela descobre que a montanha é um vulcão – que ele é possessivo, egocêntrico, e que não tem tempo para ela.
Mas, se os dois souberem se respeitar mutuamente, o casamento entre a mulher-Afrodite e o homem-Hefesto pode dar certo. Eles poderão ser felizes trabalhando juntos, produzindo coisas maravilhosas. Afinal, a união entre Hefesto e Afrodite representa a união entre trabalho, amor e beleza.

domingo, 11 de novembro de 2007

Humano, demasiadamente humano

Naquela sexta, Hefesto, como sempre, passou a noite inteira trabalhando na oficina. Chegou em casa ao amanhecer, exausto, abriu a porta do quarto e não acreditou no que via: sua esposa Afrodite na cama, completamente nua, ao lado de Ares. Respirou fundo, fechou a porta discretamente. “Que vergonha!” pensou. “Corno! Traído por minha mulher e meu próprio irmão! Vou pagá-los na mesma moeda: quero que passem vergonha em frente a todo o Olimpo! Voltou para a oficina onde, com sua arte, fabricou uma rede invisível.
No dia seguinte voltou para casa como se nada houvesse acontecido e, sem que Afrodite percebesse, armou a rede sobre a cama.
Na noite seguinte, assim que Ares e Afrodite se abraçaram, ficaram presos na rede, que era mágica. Nem mesmo a força de Ares foi suficiente para libertá-los.
Até parece peça de Nelson Rodrigues, mas é mito grego: Hefesto é nada menos que o grande artesão do Olimpo, um deus disforme e aleijado, cuja oficina ficava em uma caverna sob o vulcão Etna, na Sicília. A mulher que o traía era Afrodite, a deusa do amor, que havia casado com o mal humorado ferreiro dos deuses contra a sua vontade; e seu amante era o poderoso e másculo deus da guerra, Ares. Casada à força com um aleijado, Afrodite preferia o atleta.
Quando viu os amantes culposos presos na rede, Hefesto chamou todos os deuses do Olimpo e expôs Ares e Afrodite pelados, numa posição constrangedora à humilhação pública. As deusas se recusaram a presenciar tamanha pouca vergonha. Os deuses tiveram reações variadas. Hermes perguntou a Apolo: Como você se sentiria apertadinho contra Afrodite nesta rede? Apolo sorriu. Posídon não gostou nada da história: os três eram sobrinhos seus, como ficava a honra da família? Era preciso evitar que o escândalo se tornasse público. Tentou ser razoável com Hefesto, que estava fora de si. Há quem diga que Posídon acabou ajeitando a situação. Em outra versão, Dionísio levou Hefesto para um bar e, depois de muito vinho e muito papo, o marido traído concordou em soltar os adúlteros.
Este mito faz de Hefesto, simbolicamente, o deus dos maridos traídos. Porque logo ele? Porque não Apolo, Posídon, Hermes, ou qualquer outro? Porque, em termos modernos, Hefesto é o deus dos workaholics, dos apaixonados pelo trabalho, dos que nunca tem tempo para a mulher e os filhos. Afinal, a história começa com “como sempre, Hefesto passou a noite inteira trabalhando na oficina...”
É interessante observar as diferentes reações de cada um dos deuses diante do episódio. É fácil entender que Hera, a deusa do casamento e da fidelidade conjugal, não quisesse ver “esta pouca vergonha.” Mas e as outras deusas?
O mito detalha um pouco melhor a reação dos deuses. Hermes, Dionísio e Apolo, deuses-filhos, não parecem muito chocados. Já Posídon, deus-pai, se preocupa com que os outros vão pensar, com a imagem do Olimpo.
Humano, demasiadamente humano, como diria Nietsche.

domingo, 4 de novembro de 2007

Homem-Ares

Quando estourou a guerra de Tróia, Ares se aliou aos gregos. Era um aliado e tanto. Afinal, era o poderoso deus da guerra. Quando soube, porém, que os gregos haviam matado um filho seu, a ira fez com que muda-se de lado, esquecendo quaisquer considerações políticas ou estratégicas. Ares era assim: tomava decisões por impulso, agia primeiro e pensava depois.
O homem-Ares também corre o risco de tomar decisões precipitadas. É impetuoso, emocional, apaixonado, um homem de ação. Facilmente dominado pelas emoções. Ele gosta de desafios e é atraído pelo perigo. Na psicologia empresarial, ele é conhecido como o homem Alfa.
Atena também era a deusa da guerra, mas ela era muito diferente de Ares. Para ela a guerra era como um jogo de xadrez. Para Ares como um jogo de boxe.
O homem-Ares gosta de praticar esportes radicais, automobilismo, alpinismo ou voar de asa delta. A combinação de perigo e desafio o atrae.
Quando um homem viril, impulsivo e emocional como Ares, se apaixona por uma mulher, ele geralmente vira um doce, é carinhoso, mas vai direto ao que mais lhe interessa: sexo. Na mitologia Ares era o amante de Afrodite, e se davam muito bem. Tiveram três filhos: Phobos(medo), Deimos (terror) e Harmonia.
Medo e terror é o que o deus inspirava na guerra. O homem-Ares pode ser dominado pela raiva e se tornar assustador para uma mulher, mas a união do masculino e do feminino, representados por Ares e Afrodite também podem gerar a harmonia.

domingo, 28 de outubro de 2007

Homem-Hermes

Na mitologia grega Hermes era ‘o amigo dos homens’. Em sua função de mensageiro, era o deus que mais visitava a terra, aquele que tinha contato direto com os humanos. Foi ele quem ensinou a Odisseu como se salvar de Circe, foi ele quem emprestou as sandálias aladas a Perseu para que matasse a Medusa. Era o mensageiro - estava sempre em trânsito, cruzando fronteiras, fazendo contato com gente nova.
O homem-Hermes moderno costuma exercer funções parecidas, como profissional da comunicação, vendedor, animador social, diplomata. Encontramos homens-Hermes no jornalismo, na publicidade, na televisão - os mensageiros do mundo moderno. Eles, como o deus, têm asinhas nos pés, adoram viajar, aprender línguas, conhecer novas pessoas, ler e escrever.
E cruzando fronteiras, se comunicando com pessoas dos mais diversos níveis sociais e tribos urbanas. O homem-Hermes pode participar de uma reunião empresarial, criando um clima descontraído. No corredor, pode dar uma boa gargalhada com a mulher do cafezinho. Depois, bater papo com os moleques da rua. A noite, tanto pode ser encontrado numa universidade como num bar ou numa igreja. Hermes era o único deus que tinha carta branca para entrar no Olimpo, que circulava à vontade pela Terra e se sentia em casa no Hades, o submundo. Um bom exemplo de homem-Hermes é Chico Buarque de Holanda, mix de compositor popular, escritor culto e celebridade. Chico tem a capacidade de Hermes de viver com naturalidade diversos personagens, sem que para isto tenha de perder sua própria identidade. Em suas canções, Chico assume a personalidade de mulher fácil ou oprimida, de favelado, de operário da construção civil, de navegador português, etc. Chico vive no reino de Hermes, o reino da palavra e do conhecimento.
Quanto as mulheres, Hermes sempre manteve uma relação harmoniosa tanto com deusas como com mortais. Prometeu à sua mãe Maia (antiga deusa que fora renegada e esquecida) que a levaria de volta ao Olimpo, e a levou. Foi buscar Core nas entranhas da terra, e a trouxe para a luz. Foi aliado de Atena, amante de Afrodite, etc.
Homens-Hermes normalmente protegem a mãe, mas sem depender emocionalmente dela (Maia); são capazes de fazer uma mulher triste (Core) sorrir; de ser amigos de uma executiva de alto escalão (Atena), e se tornarem amantes de mulheres fortes e independentes, que querem curtir a vida ao máximo (Afrodite). O homem-Hermes é como um pássaro, não quer ficar preso a nada e nem a ninguém, mas gosta de um ninho no qual possa relaxar de sua geralmente intensa vida social.
No mito, Hermes casou-se com Héstia, a deusa do lar. Com ela encontrou o calor da lareira, a possibilidade de viver por momentos longe das intrigas de poder do Olimpo.
Certa vez um homem-Hermes gaúcho que namorei me disse: “Se tu tentares me prender, eu fujo; se me deixares em liberdade, eu sempre volto.” Eu acreditei, e estou casada com meu Hermes há mais de vinte anos.

sábado, 20 de outubro de 2007

Homem Dioniso

Dioniso e Apolo, ambos filhos de Zeus, têm sido vistos, desde a antiguidade, como os dois pólos opostos do caráter masculino. Apolo representaria a ordem, o dever, a lucidez e o equilíbrio. Dioniso, a festa, o prazer, o êxtase e o excesso.
Quando Sêmele, a mãe de Dioniso, estava grávida, Zeus lhe concedeu um pedido – e ela pediu ao amante que se mostrasse em toda a sua glória. Zeus tentou dissuadi-la, avisando-a de que nenhum mortal poderia suportar tanta Luz. Mas ela tinha sede de infinito, e insistiu. Como Zeus previra, foi fulminada pela visão, morrendo na hora. Zeus retirou o feto do ventre de Sêmele e o costurou em sua coxa, terminando ali a gestação de Dioniso.
Dioniso parece ter herdado da mãe o desejo de chegar à essência do divino. Legou aos homens o cultivo da uva e a preparação do vinho, o dom da embriaguez, que faz esquecer mágoas e tristezas, preparando o espírito para a festa e o prazer. Legou, por outro lado, os Mistérios, rituais que permitiam aos mortais alcançar o êxtase místico.
Os homens- Dioniso são, como o próprio deus, amantes da festa e do prazer. Ele não curtem viver a rotina da sobrevivência, a preocupação com coisas materiais, com horários, com compromissos, e questionam os valores de nossa sociedade, que exige dos homens planos de carreira, trabalho duro, preocupação constante com o futuro. Uma sociedade que, em prol de um futuro arduamente construído, sacrifica o presente. Como Sêmele, o homem- Dioniso quer viver o momento com intensidade. O amanhã, só se tornará importante quando virar hoje. Carpe diem.
Sedento de infinito, o homem-Dioniso busca experiências que o levem além das fronteiras da realidade. Dioniso foi um arquétipo muito visível nos anos 60, quando sexo, drogas e rock-n-roll eram maneiras de se atingir o êxtase e protestar contra a a violência da guerra e mediocridade da vida burguesa. Woodstock foi um grande ritual dionisíaco,
Hoje, passados 50 anos, ainda encontramos homens-Dioniso buscando o êxtase através do yoga, budismo e outras seitas orientais, do Santo Daíme, participando de rituais xamânicos, shows de rock ou música eletrônica, tomando extasy para varar a noite dançando em raves, etc.
A busca do homem-Dioniso pelo infinito, pelo não comercial, não utilitário, leva-o freqüentemente a trabalhar em atividades criativas. As artes, principalmente o teatro, estão lotadas de homens–Dioniso. Na pintura temos exemplos valiosos como Van Gogh e Basquiat, Jackson Pollock e Modigliani; na música a lista vai de Beethoven a Jim Morrison.
Os gregos acreditavam que o templo de Delfos era habitado por Apolo durante seis meses do ano. Durante os seis meses seguintes era habitado por Dioniso. Esta é a lição que devemos aprender com os antigos: vivermos uma parte de nossa vida como Apolo, trabalhando para atingir nossos objetivos; mas sem negar Dioniso, que nos ensina a viver o momento com intensidade, a nos entregarmos ao que estamos fazendo com prazer.
Conta o mito que, onde quer que fosse, Dioniso era acompanhado por um bando de bacantes. As mulheres, que fugiam de Apolo, assustadas por sua frieza e seriedade, corriam atrás de Dioniso. A atração que o homem-Dioniso exerce sobre as mulheres não é difícil de entender – ele gosta de festas, de sexo e de prazer. Sexo, prazer e chapação rolam fácil para um Dioniso. O difícil, para ele, é se fixar num relacionamento estável. Mas, por incrível que possa parecer, o deus Dioniso se apaixonou por Ariadne, casou-se e foi fiel. Certa vez, falando com um homem-Dioniso sobre mulheres, ouvi o seguinte: “Eu, em relação às mulheres, sou como peixe - peixe é difícil de pegar, porque escorrega nas mãos. Mas, depois que uma mulher pega, ela frita e come.”

domingo, 14 de outubro de 2007

O Homem Apolo

Hoje, se o homem quer entrar no Olimpo, isto é, crescer profissional e financeiramente, deve agir como Apolo.
Apolo era o filho predileto de Zeus. E o filho Apolo também é desejado por muitos pais. Para começar o lema de Apolo era “nada de excessos”, e o homem Apolo não bebe, não fuma, não come em demasia, procura ter uma vida regrada e saudável.
O homem Apolo é educado, gentil, estuda, trabalha e luta para obter promoções. Como Apolo que era imbatível no uso do arco e flecha, o homem Apolo estabelece objetivos – alvo, cria estratégias (arco e flecha) e não descansa enquanto não atingi-los.
É comum encontrarmos homens Apolo nos grandes centros urbanos, com suas poses eretas, falando no celular com suas vozes firmes e ponderadas, digitando com destreza em seus laptops. Independente da área que atuem, são profissionais brilhantes, que não permitem erros, cumprem as leis e respeitam a ordem. Afinal, Apolo era o Deus do Sol e das Leis.
A realização profissional é o forte do homem Apolo, o problema surge no relacionamento amoroso. (Apolo apaixonou-se por Dafne, mas ela não queria saber dele, quanto mais ele corria atrás dela, mais ela fugia.)
Não é difícil imaginar um homem mental, sério, focado em seus objetivos, tendo dificuldades em compreender a alma feminina. Muitas mulheres considera o frio e calculista.
Mas, apesar dos homens Apolo terem dificuldades em expressar seus sentimentos, conheço vários que se casaram com mulheres Ártemis e são felizes.
Apolo e Ártemis eram irmãos gêmeos, ambos excelentes arqueiros, viviam brincando de competir no arco e flecha. O homem Apolo e a mulher Ártemis formam um casal de amigos, se estimulam a fazer cursos de especializações, a crescer profissionalmente, dividem as tarefas rotineiras, estão lado a lado na luta do dia a dia.

domingo, 7 de outubro de 2007

O homem – Adônis

Jogando conversa fora em casa de amigos, tomando uma cervejinha, ela olha para a porta do apartamento e não acredita: o homem mais fofo do mundo acaba de chegar! O moço entra na sala e cumprimenta a todos com um com um jeito tímido. Daí a pouco, já tem três sirigaitas em volta dele. O homem-Adônis é assim – a combinação de sensibilidade, carinho, e uma certa fragilidade, tornam-no irresistível para as mulheres.
Quando uma mulher conhece e se envolve com um homem-Adônis, pensa que encontrou o homem de seus sonhos. Ele é doce, manda flores para ela, faz massagem, ama a natureza, adora ler poesia, é delicado e compreensivo.
Foi o que aconteceu com Afrodite, a deusa do amor, que apaixonou-se por Adônis assim que o viu. Mas, não se sabe por que, fez a bobagem de pedir à Perséfone que ficasse com ele por um tempo. Perséfone era a Rainha do Hades, o mundo das trevas. Ela também não resistiu aos encantos de Adônis, e se apaixonou por ele. A briga entre as duas foi feia. Zeus teve que intervir – decidiu que Adônis viveria com Afrodite quatro meses por ano, quatro com Perséfone e o resto do tempo onde quisesse.
No nosso mundo, como no Olimpo, os problemas com Adônis começam a surgir quando a mulher deseja manter uma relação estável. Quando leva o homem-Adônis para casa. Geralmente é a casa dela, que trabalha e é independente. O pior é que quando a mulher decide “casar” com Adônis, ele hesita. O homem-Adônis é incapaz de tomar decisões definitivas. É ela quem insiste. Ele pode até trabalhar, mas não é ambicioso. Não gosta de assumir responsabilidades, falar de contas ou problemas práticos, como trocar lâmpadas, desentupir a pia... Como ele detesta enfrentar problemas, sobra tudo para a mulher.
Mas o traço mais difícil do homem-Adônis, na convivência, é que ora ele está adorando estar “casado” – simbolicamente, seus quatro meses com Afrodite. Ora fica curtindo suas tristezas e angústias – os quatro meses no mundo das trevas. Ora quer morar sozinho – o tempo livre que Zeus lhe concedeu. São a instabilidade e a incapacidade de decidir que enlouquecem a mulher.
Adônis teve um final trágico no mito. Não se sabe bem porque, a deusa caçadora, Ártemis, lançou um javali contra ele e o matou. Meu lado Ártemis entende. O que a mulher-Ártemis procura num homem é o companheiro, o aliado na luta do dia a dia. Quando se depara com a passividade de um homem-Adônis, sua recusa de entrar de cabeça na luta pela sobrevivência, sua dependência em relação às mulheres, tem vontade de sacudi-lo até que ele perceba a importância de tomar a direção de sua própria vida.
Afrodite, ao saber que Adônis estava morto, pediu a Zeus que o ressuscitasse. Zeus o transformou em uma flor frágil e bela, a anêmona.
A anêmona é um símbolo da transitoriedade. Tudo passa, tudo se esvai, um segundo atrás já é passado. Se você estiver apaixonada por um homem-Adônis, não procure a permanência, a relação estável. Viva o momento. Os homens-Adônis são ótimos namorados, desde que você não procure prendê-los. Como diz Vinicius de Moraes, que seja eterno enquanto dure.

sábado, 29 de setembro de 2007

Zeus e as mulheres

Antes de mais nada, muito obrigado pelos comentários. Estou adorando saber o que vocês pensam. Wagner garante que a presença de um perfil num homem não anula a presença de outros; o que ocorre é uma predominância de um ou outro em diferentes situações. Concordo. Como disse o Álvaro: “ora homem-mãe, ora homem-irmão, ora homem-chefe, ora homem-sócio, ora homem-sol.”
Ora homem-Zeus. No mito, Zeus casou-se com Hera. Afinal, ele tinha que casar e gerar filhos – é o deus da fertilidade. Um de seus símbolos era a chuva, que fecunda a terra. Quando queria seduzir uma mulher, ele se transformava no objeto de desejo dela. Transformou-se em cuco para Hera, em touro para Europa, em cisne para Leda, etc. Com todas gerou deuses e heróis.
Zeus é o grande fertilizador, o criador da Grécia: ele cria um novo mundo, diferente do mundo rural de Cronos. Os filhos que ele teve com as amantes fundaram as polis, as cidades gregas, berço da civilização ocidental.
O homem-Zeus herda as qualidades e defeitos do deus. Sua maior qualidade é a capacidade de criar “novos reinos”, novas organizações e empresas, e saber administrá-los. Seu maior defeito é ser mulherengo. Para seduzir, o homem-Zeus toma a forma desejada pela mulher. Se ela é romântica, ele declama poesias; se ela deseja um pai, torna-se protetor; se ela for independente, ele se faz liberal e “moderno”.
Carl Gustav Jung era um homem-Zeus. Criou um novo “reino” – a psicologia analítica. Deixou muitos filhos espirituais, de ambos os sexos. Mas, dizem as más línguas, era um mulherengo, e algumas de suas discípulas foram também suas amantes.
Na política, John Kennedy é outro bom exemplo de homem-Zeus. Kennedy renovou a política americana, mas nem Marilyn Monroe escapou de seus poderes de sedução. Nas artes, o exemplo é Picasso, que casou com cinco mulheres diferentes, e traiu todas.
Não é difícil entender por que Hera, a esposa legítima de Zeus, era a deusa do ciúme. A mulher-Hera cuida da casa, dos filhos, das compras, oferece ao marido uma estrutura para que ele possa trabalhar e criar. Um bom exemplo de mulher-Hera é Hillary Clinton (tão poderosa quanto o marido. Afinal Hera participava ativamente nas intrigas de poder no Olimpo).

sábado, 22 de setembro de 2007

O Homem Zeus e o poder

Minha amiga Rosa levantou uma questão importante: e como fica a mulher de um homem Cronos? E os filhos? O mito nos dá uma pista. Quando Réia pariu Zeus, entregou a criança às ninfas das montanhas para salvá-lo do pai. Enrolou uma pedra num manto e deu para Cronos, que a engoliu pensando ser o filho. A mulher Réia não confronta o marido, mas protege os filhos usando de artimanhas.
Zeus cresceu, derrotou o pai e impôs um novo tipo de patriarcalismo, menos arcaico. Obrigou Cronos a vomitar os filhos que havia engolido, e dividiu o mundo em três reinos com os irmãos: a Posídon cedeu o reino dos mares, a Hades o submundo. Ele próprio ficou com o Olimpo e a Terra, a parte do leão. Era um patriarca que, ao contrário do pai, sabia delegar poderes.
O patriarcalismo à maneira de Zeus ainda impera na sociedade moderna – pergunte a qualquer feminista. Porém antigamente o chefe, o rei, ou pai mandava e os empregados, súditos, filhos obedeciam sem discutir. Hoje o conceito de chefia mudou.
Nos MBAs, cursos de formação para executivos, os “chefes” do mundo contemporâneo, pipocam cursos de liderança. Note bem – liderança, não chefia. Jack Welch, o executivo-chefe mais admirado da década de 90, chegou a dizer que a função de um presidente de empresa é “dar aos empregados dignidade e voz.” Goleman, um expert no assunto, diz que ser líder é criar estratégias, motivar, criar uma missão, construir uma cultura, obter resultados.
A função do chefe, ou do pai, hoje, não é mandar - é convencer.
Na relação com os filhos Zeus também foi muito diferente de Cronos. A Ártemis, ele deu instrumentos para caçar. A Hermes, deu a função de mensageiro dos deuses. Salvou Dioniso da fúria de Hera. Sua filha Atena tornou-se seu braço direito.
O Zeus moderno investe nos estudos dos filhos, os orienta profissionalmente, os salva de enrascadas, cuida e protege (desde que sejam promissores e brilhantes...). Mas ainda é ele quem manda.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Homem Cronos

Meu pai era um típico homem Cronos. Era severo, exigia ordem e disciplina, era firme em suas convicções, para não dizer teimoso como uma mula. Cronos foi retratado por muitos artistas como um velho engolindo seus filhos. Quando eu era criança, tinha muito medo dele.
O mito conta que uma profecia havia previsto que um dos filhos de Cronos o destronaria. Por isso, toda vez que sua esposa Réia paria um filho, ele a obrigava a entregá-lo para ser engolido.
Os homens da geração do meu pai, principalmente aqueles que vieram de uma sociedade rural, parece que já nasciam velhos. Eram ensinados a tratar a esposa como uma mera procriadora, e os filhos como pequenos adultos. Muitos engoliram seus filhos, criando neuroses por falta de carinho e afeto paterno, destruindo a auto-estima dos todos que os cercavam, não os deixando estudar, tolhendo o crescimento pessoal.
Hoje o homem Cronos é coisa do passado. Mas será mesmo? No blog da Adriana ela comenta como o machismo ainda está presente. É impressionante, mas numa mesma década vivem pessoas de diversas décadas.

Mudando de assunto: adorei os comentários que recebi. A todos que fizeram comentários, um abraço gostoso pelo carinho, que é recíproco. Minha amiga Rosa comentou sobre a importância de conhecermos também os arquétipos femininos, com o objetivo de descobrir nosso Eu. No futuro pretendo falar sobre o feminino; mas ao conhecer o homem, a mulher está conhecendo a si mesma, afinal é através do outro que nos descobrimos.
Meu amigo Castelar comentou sobre a relatividade do sistema de tipologia, não somos sempre a mesma coisa, variamos de acordo com o momento. Concordo. A tipologia é apenas um roteiro para iniciarmos a jornada do auto- conhecimento. O homem Cronos, por exemplo, não é apenas um tipo masculino, é um personagem que vive dentro de cada um de nós. Aquele velho chato que vive nos dizendo que não somos capazes, que confunde responsabilidade com culpa, respeito com submissão, ordem e disciplina com prisão.

sábado, 8 de setembro de 2007

Começo de papo

Happy hour, aquele zumzum de gente que passou o dia entre telefonemas, reuniões, preocupada com relatórios, prazos, resultados, felizes agora por poder, finalmente, tomar seu chopinho e falar abobrinhas. Uma mulher que lembrava vagamente Júlia Roberts, disse naquele tom de quem descobriu que Papai Noel não existe: “Homem é tudo igual”. Vivo ouvindo esta frase: homem é tudo igual. Na terapia, em conversas de amigas, no metrô, e até na televisão. Eu mesma afirmava isto, quando um namoro não dava certo. Mas será que os homens são todos iguais? De cabeça fria, qualquer mulher sabe que isso não é verdade. Um treinador de academia não é igual a um professor universitário.
Jean Shinoda Bolen, uma psicóloga americana, divide os homens entre homens-pais e homens-filhos. Os homens-pai, de modo geral, dão à mulher a sensação de segurança, proteção, estabilidade. Porém, podem cercear sua liberdade e tratá-la como filha. Os homens-filho, por outro lado, são excelentes companheiros, estimulam a mulher a expandir seus horizontes, lutar ao seu lado e enfrentar a vida. Mas também têm seus perigos – muito homens-filhos estão a procura de uma mãe, não uma mulher. Shinoda subdivide estes dois grupos principais em vários tipos, o homem-Zeus, o homem-Dioniso, Hermes, Apolo, etc. Não esgota o assunto, mas é um bom começo.
Talvez seja devido a esta variedade que nós, mulheres, falamos tanto sobre homens. É uma tentativa de compará-los, separar o joio do trigo. O interesse é tanto e tão grande que, volta e meia, minhas clientes me pedem para dar um curso sobre arquétipos masculinos. Um curso destes começa quinta-feira que vem, e gostaria de trazer a discussão para este espaço. Conto com sua contribuição neste papo.