domingo, 11 de novembro de 2007

Humano, demasiadamente humano

Naquela sexta, Hefesto, como sempre, passou a noite inteira trabalhando na oficina. Chegou em casa ao amanhecer, exausto, abriu a porta do quarto e não acreditou no que via: sua esposa Afrodite na cama, completamente nua, ao lado de Ares. Respirou fundo, fechou a porta discretamente. “Que vergonha!” pensou. “Corno! Traído por minha mulher e meu próprio irmão! Vou pagá-los na mesma moeda: quero que passem vergonha em frente a todo o Olimpo! Voltou para a oficina onde, com sua arte, fabricou uma rede invisível.
No dia seguinte voltou para casa como se nada houvesse acontecido e, sem que Afrodite percebesse, armou a rede sobre a cama.
Na noite seguinte, assim que Ares e Afrodite se abraçaram, ficaram presos na rede, que era mágica. Nem mesmo a força de Ares foi suficiente para libertá-los.
Até parece peça de Nelson Rodrigues, mas é mito grego: Hefesto é nada menos que o grande artesão do Olimpo, um deus disforme e aleijado, cuja oficina ficava em uma caverna sob o vulcão Etna, na Sicília. A mulher que o traía era Afrodite, a deusa do amor, que havia casado com o mal humorado ferreiro dos deuses contra a sua vontade; e seu amante era o poderoso e másculo deus da guerra, Ares. Casada à força com um aleijado, Afrodite preferia o atleta.
Quando viu os amantes culposos presos na rede, Hefesto chamou todos os deuses do Olimpo e expôs Ares e Afrodite pelados, numa posição constrangedora à humilhação pública. As deusas se recusaram a presenciar tamanha pouca vergonha. Os deuses tiveram reações variadas. Hermes perguntou a Apolo: Como você se sentiria apertadinho contra Afrodite nesta rede? Apolo sorriu. Posídon não gostou nada da história: os três eram sobrinhos seus, como ficava a honra da família? Era preciso evitar que o escândalo se tornasse público. Tentou ser razoável com Hefesto, que estava fora de si. Há quem diga que Posídon acabou ajeitando a situação. Em outra versão, Dionísio levou Hefesto para um bar e, depois de muito vinho e muito papo, o marido traído concordou em soltar os adúlteros.
Este mito faz de Hefesto, simbolicamente, o deus dos maridos traídos. Porque logo ele? Porque não Apolo, Posídon, Hermes, ou qualquer outro? Porque, em termos modernos, Hefesto é o deus dos workaholics, dos apaixonados pelo trabalho, dos que nunca tem tempo para a mulher e os filhos. Afinal, a história começa com “como sempre, Hefesto passou a noite inteira trabalhando na oficina...”
É interessante observar as diferentes reações de cada um dos deuses diante do episódio. É fácil entender que Hera, a deusa do casamento e da fidelidade conjugal, não quisesse ver “esta pouca vergonha.” Mas e as outras deusas?
O mito detalha um pouco melhor a reação dos deuses. Hermes, Dionísio e Apolo, deuses-filhos, não parecem muito chocados. Já Posídon, deus-pai, se preocupa com que os outros vão pensar, com a imagem do Olimpo.
Humano, demasiadamente humano, como diria Nietsche.

4 comentários:

T disse...

Nossa, muito legal ler teus textos :) Continua a� ;)
Bjao

Nath disse...

Sim, muuuuito humano...

Unknown disse...

No Olimpo... já existia assunto tão atuais e nosso cotidiano. Mas sempre é bom pensar ... e ver que até os Deuses enfrentam situações constrangedoras. bjs...visitarei seu blog e indicarei para minhas amigas..muito bom

Anônimo disse...

muito bom cada vez melhor,escreve mais nao para, há já indiquei para algumas pessoas bjs....