domingo, 28 de outubro de 2007

Homem-Hermes

Na mitologia grega Hermes era ‘o amigo dos homens’. Em sua função de mensageiro, era o deus que mais visitava a terra, aquele que tinha contato direto com os humanos. Foi ele quem ensinou a Odisseu como se salvar de Circe, foi ele quem emprestou as sandálias aladas a Perseu para que matasse a Medusa. Era o mensageiro - estava sempre em trânsito, cruzando fronteiras, fazendo contato com gente nova.
O homem-Hermes moderno costuma exercer funções parecidas, como profissional da comunicação, vendedor, animador social, diplomata. Encontramos homens-Hermes no jornalismo, na publicidade, na televisão - os mensageiros do mundo moderno. Eles, como o deus, têm asinhas nos pés, adoram viajar, aprender línguas, conhecer novas pessoas, ler e escrever.
E cruzando fronteiras, se comunicando com pessoas dos mais diversos níveis sociais e tribos urbanas. O homem-Hermes pode participar de uma reunião empresarial, criando um clima descontraído. No corredor, pode dar uma boa gargalhada com a mulher do cafezinho. Depois, bater papo com os moleques da rua. A noite, tanto pode ser encontrado numa universidade como num bar ou numa igreja. Hermes era o único deus que tinha carta branca para entrar no Olimpo, que circulava à vontade pela Terra e se sentia em casa no Hades, o submundo. Um bom exemplo de homem-Hermes é Chico Buarque de Holanda, mix de compositor popular, escritor culto e celebridade. Chico tem a capacidade de Hermes de viver com naturalidade diversos personagens, sem que para isto tenha de perder sua própria identidade. Em suas canções, Chico assume a personalidade de mulher fácil ou oprimida, de favelado, de operário da construção civil, de navegador português, etc. Chico vive no reino de Hermes, o reino da palavra e do conhecimento.
Quanto as mulheres, Hermes sempre manteve uma relação harmoniosa tanto com deusas como com mortais. Prometeu à sua mãe Maia (antiga deusa que fora renegada e esquecida) que a levaria de volta ao Olimpo, e a levou. Foi buscar Core nas entranhas da terra, e a trouxe para a luz. Foi aliado de Atena, amante de Afrodite, etc.
Homens-Hermes normalmente protegem a mãe, mas sem depender emocionalmente dela (Maia); são capazes de fazer uma mulher triste (Core) sorrir; de ser amigos de uma executiva de alto escalão (Atena), e se tornarem amantes de mulheres fortes e independentes, que querem curtir a vida ao máximo (Afrodite). O homem-Hermes é como um pássaro, não quer ficar preso a nada e nem a ninguém, mas gosta de um ninho no qual possa relaxar de sua geralmente intensa vida social.
No mito, Hermes casou-se com Héstia, a deusa do lar. Com ela encontrou o calor da lareira, a possibilidade de viver por momentos longe das intrigas de poder do Olimpo.
Certa vez um homem-Hermes gaúcho que namorei me disse: “Se tu tentares me prender, eu fujo; se me deixares em liberdade, eu sempre volto.” Eu acreditei, e estou casada com meu Hermes há mais de vinte anos.

sábado, 20 de outubro de 2007

Homem Dioniso

Dioniso e Apolo, ambos filhos de Zeus, têm sido vistos, desde a antiguidade, como os dois pólos opostos do caráter masculino. Apolo representaria a ordem, o dever, a lucidez e o equilíbrio. Dioniso, a festa, o prazer, o êxtase e o excesso.
Quando Sêmele, a mãe de Dioniso, estava grávida, Zeus lhe concedeu um pedido – e ela pediu ao amante que se mostrasse em toda a sua glória. Zeus tentou dissuadi-la, avisando-a de que nenhum mortal poderia suportar tanta Luz. Mas ela tinha sede de infinito, e insistiu. Como Zeus previra, foi fulminada pela visão, morrendo na hora. Zeus retirou o feto do ventre de Sêmele e o costurou em sua coxa, terminando ali a gestação de Dioniso.
Dioniso parece ter herdado da mãe o desejo de chegar à essência do divino. Legou aos homens o cultivo da uva e a preparação do vinho, o dom da embriaguez, que faz esquecer mágoas e tristezas, preparando o espírito para a festa e o prazer. Legou, por outro lado, os Mistérios, rituais que permitiam aos mortais alcançar o êxtase místico.
Os homens- Dioniso são, como o próprio deus, amantes da festa e do prazer. Ele não curtem viver a rotina da sobrevivência, a preocupação com coisas materiais, com horários, com compromissos, e questionam os valores de nossa sociedade, que exige dos homens planos de carreira, trabalho duro, preocupação constante com o futuro. Uma sociedade que, em prol de um futuro arduamente construído, sacrifica o presente. Como Sêmele, o homem- Dioniso quer viver o momento com intensidade. O amanhã, só se tornará importante quando virar hoje. Carpe diem.
Sedento de infinito, o homem-Dioniso busca experiências que o levem além das fronteiras da realidade. Dioniso foi um arquétipo muito visível nos anos 60, quando sexo, drogas e rock-n-roll eram maneiras de se atingir o êxtase e protestar contra a a violência da guerra e mediocridade da vida burguesa. Woodstock foi um grande ritual dionisíaco,
Hoje, passados 50 anos, ainda encontramos homens-Dioniso buscando o êxtase através do yoga, budismo e outras seitas orientais, do Santo Daíme, participando de rituais xamânicos, shows de rock ou música eletrônica, tomando extasy para varar a noite dançando em raves, etc.
A busca do homem-Dioniso pelo infinito, pelo não comercial, não utilitário, leva-o freqüentemente a trabalhar em atividades criativas. As artes, principalmente o teatro, estão lotadas de homens–Dioniso. Na pintura temos exemplos valiosos como Van Gogh e Basquiat, Jackson Pollock e Modigliani; na música a lista vai de Beethoven a Jim Morrison.
Os gregos acreditavam que o templo de Delfos era habitado por Apolo durante seis meses do ano. Durante os seis meses seguintes era habitado por Dioniso. Esta é a lição que devemos aprender com os antigos: vivermos uma parte de nossa vida como Apolo, trabalhando para atingir nossos objetivos; mas sem negar Dioniso, que nos ensina a viver o momento com intensidade, a nos entregarmos ao que estamos fazendo com prazer.
Conta o mito que, onde quer que fosse, Dioniso era acompanhado por um bando de bacantes. As mulheres, que fugiam de Apolo, assustadas por sua frieza e seriedade, corriam atrás de Dioniso. A atração que o homem-Dioniso exerce sobre as mulheres não é difícil de entender – ele gosta de festas, de sexo e de prazer. Sexo, prazer e chapação rolam fácil para um Dioniso. O difícil, para ele, é se fixar num relacionamento estável. Mas, por incrível que possa parecer, o deus Dioniso se apaixonou por Ariadne, casou-se e foi fiel. Certa vez, falando com um homem-Dioniso sobre mulheres, ouvi o seguinte: “Eu, em relação às mulheres, sou como peixe - peixe é difícil de pegar, porque escorrega nas mãos. Mas, depois que uma mulher pega, ela frita e come.”

domingo, 14 de outubro de 2007

O Homem Apolo

Hoje, se o homem quer entrar no Olimpo, isto é, crescer profissional e financeiramente, deve agir como Apolo.
Apolo era o filho predileto de Zeus. E o filho Apolo também é desejado por muitos pais. Para começar o lema de Apolo era “nada de excessos”, e o homem Apolo não bebe, não fuma, não come em demasia, procura ter uma vida regrada e saudável.
O homem Apolo é educado, gentil, estuda, trabalha e luta para obter promoções. Como Apolo que era imbatível no uso do arco e flecha, o homem Apolo estabelece objetivos – alvo, cria estratégias (arco e flecha) e não descansa enquanto não atingi-los.
É comum encontrarmos homens Apolo nos grandes centros urbanos, com suas poses eretas, falando no celular com suas vozes firmes e ponderadas, digitando com destreza em seus laptops. Independente da área que atuem, são profissionais brilhantes, que não permitem erros, cumprem as leis e respeitam a ordem. Afinal, Apolo era o Deus do Sol e das Leis.
A realização profissional é o forte do homem Apolo, o problema surge no relacionamento amoroso. (Apolo apaixonou-se por Dafne, mas ela não queria saber dele, quanto mais ele corria atrás dela, mais ela fugia.)
Não é difícil imaginar um homem mental, sério, focado em seus objetivos, tendo dificuldades em compreender a alma feminina. Muitas mulheres considera o frio e calculista.
Mas, apesar dos homens Apolo terem dificuldades em expressar seus sentimentos, conheço vários que se casaram com mulheres Ártemis e são felizes.
Apolo e Ártemis eram irmãos gêmeos, ambos excelentes arqueiros, viviam brincando de competir no arco e flecha. O homem Apolo e a mulher Ártemis formam um casal de amigos, se estimulam a fazer cursos de especializações, a crescer profissionalmente, dividem as tarefas rotineiras, estão lado a lado na luta do dia a dia.

domingo, 7 de outubro de 2007

O homem – Adônis

Jogando conversa fora em casa de amigos, tomando uma cervejinha, ela olha para a porta do apartamento e não acredita: o homem mais fofo do mundo acaba de chegar! O moço entra na sala e cumprimenta a todos com um com um jeito tímido. Daí a pouco, já tem três sirigaitas em volta dele. O homem-Adônis é assim – a combinação de sensibilidade, carinho, e uma certa fragilidade, tornam-no irresistível para as mulheres.
Quando uma mulher conhece e se envolve com um homem-Adônis, pensa que encontrou o homem de seus sonhos. Ele é doce, manda flores para ela, faz massagem, ama a natureza, adora ler poesia, é delicado e compreensivo.
Foi o que aconteceu com Afrodite, a deusa do amor, que apaixonou-se por Adônis assim que o viu. Mas, não se sabe por que, fez a bobagem de pedir à Perséfone que ficasse com ele por um tempo. Perséfone era a Rainha do Hades, o mundo das trevas. Ela também não resistiu aos encantos de Adônis, e se apaixonou por ele. A briga entre as duas foi feia. Zeus teve que intervir – decidiu que Adônis viveria com Afrodite quatro meses por ano, quatro com Perséfone e o resto do tempo onde quisesse.
No nosso mundo, como no Olimpo, os problemas com Adônis começam a surgir quando a mulher deseja manter uma relação estável. Quando leva o homem-Adônis para casa. Geralmente é a casa dela, que trabalha e é independente. O pior é que quando a mulher decide “casar” com Adônis, ele hesita. O homem-Adônis é incapaz de tomar decisões definitivas. É ela quem insiste. Ele pode até trabalhar, mas não é ambicioso. Não gosta de assumir responsabilidades, falar de contas ou problemas práticos, como trocar lâmpadas, desentupir a pia... Como ele detesta enfrentar problemas, sobra tudo para a mulher.
Mas o traço mais difícil do homem-Adônis, na convivência, é que ora ele está adorando estar “casado” – simbolicamente, seus quatro meses com Afrodite. Ora fica curtindo suas tristezas e angústias – os quatro meses no mundo das trevas. Ora quer morar sozinho – o tempo livre que Zeus lhe concedeu. São a instabilidade e a incapacidade de decidir que enlouquecem a mulher.
Adônis teve um final trágico no mito. Não se sabe bem porque, a deusa caçadora, Ártemis, lançou um javali contra ele e o matou. Meu lado Ártemis entende. O que a mulher-Ártemis procura num homem é o companheiro, o aliado na luta do dia a dia. Quando se depara com a passividade de um homem-Adônis, sua recusa de entrar de cabeça na luta pela sobrevivência, sua dependência em relação às mulheres, tem vontade de sacudi-lo até que ele perceba a importância de tomar a direção de sua própria vida.
Afrodite, ao saber que Adônis estava morto, pediu a Zeus que o ressuscitasse. Zeus o transformou em uma flor frágil e bela, a anêmona.
A anêmona é um símbolo da transitoriedade. Tudo passa, tudo se esvai, um segundo atrás já é passado. Se você estiver apaixonada por um homem-Adônis, não procure a permanência, a relação estável. Viva o momento. Os homens-Adônis são ótimos namorados, desde que você não procure prendê-los. Como diz Vinicius de Moraes, que seja eterno enquanto dure.