domingo, 9 de dezembro de 2007

Fim de Ano

Durante uma entrevista famosa, que acabou virando livro, perguntaram ao grande mitólogo Joseph Campbell, que era também Professor de Mitologia em uma universidade americana, como ele havia conseguido que “jovens provenientes da classe média - com suas religiões ortodoxas – se interessassem pelos mitos?”
Campbell respondeu, e eu assino em baixo, que “a mitologia (ensina às jovens) o que está por trás da literatura, das artes, ensina sobre a sua própria vida. É um assunto vasto, excitante, um alimento vital. A mitologia tem muito a ver com os estágios da vida, as cerimônias...”
As palavras de Campbell sintetizam bem o valor que a mitologia tem em meu trabalho, e em minha vida. A mitologia nos ensina sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre as mudanças e como enfrentá-las.
Foi um prazer partilhar com vocês destes passeios pelo reino da mitologia, um reino de riquezas inesgotáveis. O qual é, na verdade, o reino do humano: dos comportamentos, das relações, das armadilhas da vida, do medo da morte, da busca do amor, do sucesso, da paz de espírito, do auto-conhecimento. O reino da Psicologia.
O fim do ano se aproxima, a época dos encerramentos, dos finais, da celebração e do cansaço. Encerramos aqui este blog. Prometemos voltar com o novo ano. Mando um abraço gostoso a todos que me acompanharam e enriqueceram o blog com comentários, e-mails e sugestões. E feliz ano novo para todos!

domingo, 2 de dezembro de 2007

O Homem-Agamenon

Quando os gregos declararam guerra contra Tróia, Agamenon, o mais poderoso dos reis gregos, reuniu todo o exército no porto. Já estavam prontos para partir quando uma calmaria se abateu sobre o oceano. Nem uma brisa soprava; os navios não podiam zarpar.
Agamenon consultou um oráculo e ficou sabendo que a calmaria era um castigo de Ártemis, a protetora das mulheres, que estava indignada por que fora a única deusa a quem Agamenon não havia feito nenhuma oferenda. Exigia que Agamenon sacrificasse sua filha Ifigênia para permitir que os gregos fossem à guerra. Dividido entre o amor à filha e a glória de derrotar Tróia, Agamenon escolheu a glória. Sabendo que a esposa e a filha poderiam se opor ao sacrifício, usou de um estratagema. Mandou um recado comunicando que Aquiles, o maior herói grego, queria se casar com Ifigênia antes de partir para Tróia. Ifigênia e sua mãe, felizes, sem desconfiar de nada, foram para o porto celebrar as bodas. Mas não houve casamento algum. Ao invés, Ifigênia foi assassinada. Aquiles, quando soube que fora usado como isca, ficou furioso.
Agamenon enganou a esposa, o amigo, sacrificou sua própria filha, tudo em prol de um único objetivo: conquistar a glória e o poder.
Chocante? Pois histórias como esta são mais comuns do que você pensa no dia de hoje – homens-Agamenon que sacrificam tudo em busca de ascensão profissional, status e poder. Hoje, é claro, não precisam matar fisicamente a filha. Basta não ter tempo para a esposa e os filhos, ou ignorá-los quando estão presentes. No trabalho, homens-Agamenon tendem a tirar o sangue dos funcionários, exigindo que se dediquem exclusivamente ao emprego, e que sacrifiquem sua vida pessoal como ele fez. Muitas vezes usam de artimanhas questionáveis para atingir seus objetivos.
Um homem-Agamenon sacrifica seu lado feminino – nega seus sentimentos, intuições, e não se importa com as conseqüências de seus atos na vida de outras pessoas.
Mas não são somente homens que agem como Agamenon. No mercado globalizado, onde as mulheres competem diretamente com os homens pelo status e poder na vida profissional, elas sacrificam sua própria feminilidade, sua vida pessoal, em prol do sucesso profissional, do bônus, do status – e acabam se tornando velhas amargas e solitárias.